21.02.2017

Depoimento 2017

Eu não sei tocar. Então a minha música inteira é esse equilíbrio entre tocar sem saber, construção de timbre, experiência com sons, etc. A partir das inúmeras limitações, criar um estilo, e fazer algo que eu goste de ouvir. Eu não gosto muito de esconder minha inabilidade, me esconder, por trás de barulhos, toneladas de delay etc. Cada vez mais, quando eu percebo que estou mascarando minha inabilidade dessa maneira, como se estivesse usando muletas, eu retiro esses artifícios, assim eu consigo me concentrar em melhorar minha técnica. Melhorando a técnica de tocar, aí sim o resultado inteiro melhora.

Esse processo ocorreu nos álbuns de piano solo. Há duas épocas: a de sintetizador e a de piano digital. Os primeiros, "Sinfonia No.1" (2005) e "A Arte do Tédio" (2007), foram realmente experimentos com timbre, efeitos, duração e conceito: sonoridades eletrônicas, com filtros e todo tipo de recursos, baseados em sons de piano. Já em 2008 ocorreu uma transição: fiz algumas peças sem o recurso dos efeitos, só mesmo com os sons de piano. Essas inéditas eu reuni na coleção "Naïf"; junto com os dois álbuns citados antes, o pacote foi publicado sob o título "Piano Experiments 04/08" (2013). Ele reúne toda a época de piano de sintetizador.

Depois, em "Perspectives" (2012), "Nocturnes" (2012) e "Stream" (2013), eu troquei o sintetizador por piano digital, que é algo bem próximo do som de um piano acústico. O piano digital não tem qualquer efeito que transforme radicalmente o som do piano. E aí a minha técnica pianística, ou melhor, a falta dela, aparece completamente. Porém depois eu passei a achar que a maior parte das faixas nessa sequência serve só para mim, como estudos; e uma seleção delas é que teria qualidade para o público. Donde se conclui: quando eu uso artifícios de efeitos, barulhos etc., eu tendo a achar o resultado mais acessível para o público, porém quando uso essas técnicas, eu acho que fica fácil demais, acho uma picaretagem da minha parte. Daí também eu nunca usei computador em palco.

No caso da linha de monotron, achei o quarto e último álbum, "A New Life In A New Planet" (2015), a realização do potencial dos anteriores, chamados "Sinfonia No.2" (2012), "Underground" (2014) e "Tsunami" (2014). Por isso esse último foi o que mantive disponível, os anteriores estão mais enquadrados num estágio experimental. No caso da linha de piano digital, não há um quarto álbum mas tenho a ideia de coletar as melhores peças e publicar um "selected piano solos". Sendo assim, está explicado por que tenho seis álbuns solo que não estão disponíveis para download no momento.

Eu trabalho de álbum em álbum, uso esse conceito, ideia, formato pra organizar meu trabalho, e além disso, ao mesmo tempo, uso a ideia de discografia para compor o trabalho como um todo, como se fosse um longo álbum em vários capítulos, feito através das décadas.

Eu estou seguindo no momento uma linha que eu chamaria de: "instrumental de teclados". É uma continuidade do que considero minha linha principal de trabalho, ou seja, os álbuns que são menos experimentais, aqueles que eu levo mais tempo fazendo. No álbum "Dezoito" (2016), procurei reduzir o grau de experimentalismo, ruídos e afins. Realçar ritmo e melodia. O álbum novo que estou fazendo agora é um refinamento disso, porque também por enquanto estou evitando até os timbres eletrônicos e sintéticos. Tenho usado o Roland XP30, que é um teclado/sintetizador com timbres pré-gravados (no jargão chamamos de rompler, nome derivado de sampler). O XP30 foi meu primeiro teclado, adquirido no ano 2000, por muitos anos o único. Parei de usar depois que adquiri outros, mas recentemente, coloquei nele uma placa de expansão que inclui sons de boa qualdade de órgãos Hammond, Farfisa, Mellotron e outros teclados da anos 1960 e 70. Tudo isso estará no meu próximo álbum.

Aumentar a palheta de sons, seja nessa expansão ou na aquisição de um instrumento novo, costuma ser o ponto de partida para criar um álbum novo. Daí também que em alguns momentos aflora o experimentalismo. O "Arrival" (2014), feito em colaboração com o Visszajáró, grupo da Sérvia, foi o primeiro em que usei, em estágio experimental, a bateria eletrônica. Já no "Dezoito", dois anos depois, eu tinha passado desse estágio.

O chato é que eu estou perdendo um pouco do entusiasmo inicial pela peça nova que tô fazendo, agora que está quase pronta. Comecei a achar os timbres meio sem graça. Acontece que o XP30 foi lançado em 1999, já é bem antigo, e instrumentos eletrônicos evoluem rapidamente, mas não tenho dinheiro pra me manter atualizado. Na etapa de finalização do trabalho, equalização, mixagem, masterização, eu devo conseguir melhorar o som. Mas é sempre assim. Só falta gravar cinco minutos da primeira peça que estou fazendo pro álbum novo, e agora que já tá tudo pronto na minha cabeça, vamos dizer que dá uma certa preguiça "colocar no papel", gravar. A última etapa do trabalho costuma ser a mais demorada mesmo. Além de tudo, compor música sem escrever nem usar MIDI torna mais difícil refazer um trecho ou trocar um timbre. É o difícil equilíbrio de buscar fazer algo de qualidade com limitações técnicas.

Criei o pendrive com a discografia solo inteira pra quem quer conhecer absolutamente tudo que publiquei, contribuindo com dinheiro. Conforme o catálogo aumenta, eu já escutei comentários negativos com relação ao tamanho da discografia (eu hein, tá tudo de graça e ainda reclamam?) Então eu penso que a oferta deve ser concentrada nos melhores. Eu dei ao álbum "Dezoito" este nome porque apesar de eu ter indisponibilizado um terço do catálogo solo, não teria existido o décimo-oitavo sem esses outros.

A coisa se restringe mais ainda quando se fala em fazer midia fisica. Tanto é que ninguem se dispôs a bancar. Isto só ocorreu com o primeiro álbum, mas foi em 2002, quando ainda se bancava fabricação de CD. Isso não existe mais. Mesmo assim eu acredito que essa indisposição da indústria em financiar uma publicação física dos meus álbuns se deva à qualidade baixa do material que ofereci até agora. Talvez a partir do "Dezoito" isso comece a mudar. Acho que a qualidade dele é superior a tudo que fiz antes. E pretendo que o novo seja melhor ainda. Cada álbum que faço, eu busco que seja melhor que o anterior, em algum aspecto, ou se possível, em todos. Acho que até agora, desde o ano 2000, eu tenho conseguido isso. Quando não conseguir mais, eu paro.

01.03.2016
DEZOITO, novo álbum! Download MP3 do selo Sinewave www.gustavojobim.com/18 ou FLAC do Bandcamp www.gustavojobim.com/bandcamp/18
15.01.2016
O álbum "Dezoito" estava previsto para lançamento em 29.10.2015, mas agora está na reta final. Em breve.
18.08.2015
O site está em reforma, estou adaptando para que seja legível em aparelhos móveis (e ao mesmo tempo em telas grandes de computador). Tentarei manter tudo funcionando normalmente. Obrigado pela paciência.
20.07.2015
"É raro hoje em dia encontrar algum paralelo para o corpo sonoro poderoso que Gustavo vem construindo." Leia a resenha completa do Anthem Albums para A New Life In A New Planet aqui.
04.07.2015
Primeiros trabalhos agora disponíveis de graça/pague-quanto-quiser! Clique: Birth (2000-2003, lançado em 2012) e Round Mi (2003).
11.05.2015
06.01.2015
Tsunami é "um álbum intensamente negro, imersivo, em que os sons desafiam constantemente os ouvidos" - leia a resenha completa por Synth and Sequences! (em inglês)
 
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