O que é isso tudo? Quem é Gustavo Jobim? Como os álbuns foram feitos? Tá tudo aqui.
Música
Sou do Rio de Janeiro. Comecei a fazer música em 2000, aos 17 anos de idade. Naquele primeiro momento usava apenas o computador. Fiz um curso livre de teclado e teoria e ao final do ano ganhei da família meu primeiro sintetizador, um Roland XP-30. Meu primeiro disco saiu no início de 2003, Round Mi (selo Som Interior). Ele foi bem recebido em muitos países. Com o fim da era do CD, todos os meus álbuns seguintes vêm sendo lançados em formato digital, com edições físicas feitas a mão. É uma operação completamente independente.
A música é instrumental. As principais influências são as várias vanguardas artísticas do século XX, e a música eletrônica e progressiva dos anos 1970. Geralmente utilizo a composição instantânea, ou improvisação com regras, como base para as composições. Uma obra pode ser uma gravação pura de apenas um instrumento sem outras intervenções, ou ter diversas camadas em arranjos mais complexos. Meus lançamentos refletem esta variedade.
O período de 2003 a 2010 foi marcado por muita experimentação e gravação mas poucos lançamentos. Melhorei conhecimentos teóricos e técnicos com um curso na Escola de Música Villa-Lobos. Em 2011 comecei a organizar e lançar todo o material que estava engavetado, e também novas criações. Essa sequência culminou com o 12º álbum, Manifesto, que foi originalmente concebido para ser o segundo álbum mas levou dez anos para ficar pronto.
Tive a sorte de tocar com alguns artistas que me influenciaram. Participei a convite de um show com Damo Suzuki, vocalista dos melhores álbuns do Can, no primeiro show dele no Brasil em 2005. Em 2008, gravei com Conrad Schnitzler um dueto de piano publicado no álbum Belles Alliances. Em 2011, cantei e toquei escaleta com o Faust, na primeira vez que o grupo veio ao Brasil.
Sempre usei um estúdio caseiro improvisado. Tenho uma pequena seleção de sintetizadores, além de um piano digital. Sempre tento tirar o máximo destas poucas ferramentas.
Meu primeiro show solo foi em 2005, com os amigos Thelmo Cristovam e Filipe Giraknob como convidados. Fiz poucos shows solo desde então. Mais recentemente, tem havido um crescimento na cena experimental no Rio, e um aumento na quantidade de locais que mostram esse tipo de som. Em 2012, voltei a fazer shows, com dois concertos na Plano B.
Bandas e colaborações
Toquei em 2003 com a banda de post-rock Sensorial Estéreo. Colaborei com alguns sons para o último álbum deles, 10 Mil Hertz Suíte Hi-Fi. Fui tecladista do Zumbi do Mato, um importante grupo do underground carioca, na fase final de sua existência (2005-2013). Lancei com eles o álbum Toma, Figurão (ao vivo), em 2008. Fora as experiências com bandas, estou sempre colaborando com outros artistas e lançando álbuns em parceria.
Outras artes
Sou um artista visual amador, faço desenhos e arte digital. Eu geralmente crio toda a parte gráfica dos meus álbuns. Minha esposa e meu filho também já participaram em duas capas (Birth e Retrospect 00/12). Desde 1998 escrevo poemas nonsense, dadaístas e surrealistas, sob o pseudônimo de Zé Urbano. Meu primeiro livro foi lançado em 2009. Além de tudo isso, construí, mantenho e atualizo este site.
Gustavo Jobim, Maio 2013
2013
2012
2011
2001-2002: A criação de Round Mi
Parte 1: 2000: No começo...
Em janeiro de 2000 comecei um curso livre de música com o maestro Paulo Cesar Neves. Ele me ensinou os fundamentos da teoria musical e técnica de teclado. Pra mim o mais importante era a teoria porque eu não tinha um instrumento musical, mas já tinha ambições de criar músicas elaboradas e grandiosas. Usando os novos conhecimentos, imediatamente tentei concretizar minhas ideias no computador. Eu utilizava o programa Fast Tracker II, que basicamente é um sequenciador de várias faixas baseado em amostras sonoras. Este programa criava os chamados módulos, que eram arquivos contendo as amostras sonoras e as instruções musicais, como "toque o instrumento X, nota Sol-3, volume 80, efeito sonoro Y". O formato de módulo foi amplamente utilizado como trilha sonora de jogos de computador antes da era do MP3. Trilhas sonoras de videogames e de jogos de computador tiveram papel importante na minha formação musical no final dos anos 1980, início dos anos 1990, além de estimular meu gosto pela eletrônica e, mais tarde, minha orientação para a música eletrônica.
Ao final deste primeiro ano, eu já tinha compilado os primeiros experimentos num formato de álbum, Avojo, e estava no meio da minha primeira composição conceitual em larga escala, Sequensea, em 10 partes, usando ainda o Fast Tracker II.
Daí ganhei meu primeiro sintetizador, um Roland XP-30, dado pela família, e passei pelo mesmo processo: gravei vários experimentos, que foram compilados como o álbum Outubro a Dezembro, e tentei uma nova composição, gravada em dezembro, chamada Aventura. O principal método que eu usava, e ainda uso hoje, era o de "composição instantânea", ou improviso estruturado: um processo de improvisação cuidadosamente calculado, com algumas regras desde o início, ou então regras criadas conforme a música é tocada. Ao final da sessão, se o resultado for bom, soa como uma composição normal. Em março de 2001 finalizei Sequensea e passei a me dedicar inteiramente ao XP-30. Logo depois gravei as primeiras composições com arranjo mais elaborado.
Em setembro de 2001, cheguei a um novo patamar com uma peça de 20 minutos que chamei de Loopsurf-Loopsearch. Então com Loopsurf começou a criação do que eventualmente se tornou meu primeiro lançamento.
Parte 2: A suíte
Depois de Loopsurf resgatei alguns rascunhos melódicos do início de 2001 e fiz um arranjo de uma pequena peça baseada em sequencer, que se tornou Floating Tones Around Mi. O título tem três significados: é uma descrição da linha melódica, que se mantém ao redor da nota mi (around é ao redor em inglês); é uma referência ao fato de que naquela época eu ainda estava fortemente influenciado pelos músicos eletrônicos recém-descobertos ("mi" tem a mesma pronúncia de "me", e "tons around me" = "tons ao redor de mim"); além disso é uma referência a Tone Float, o único álbum, de 1970, de um grupo alemão chamado Organisation, que se tornou o Kraftwerk.
Sob a influência de Jean-Michel Jarre e muitas sinfonias clássicas, que é meu gênero preferido de música clássica, decidi que Floating Tones seria a primeira parte de uma suíte. Cada parte foi uma realização importante no meu desenvolvimento musical. Lamento foi a primeira que incluiu uma amostra de som gravado por mim (um found sound): a gravação do ambiente de uma tarde chuvosa, feita a partir da janela do meu quarto, onde toda a música deste álbum foi criada. Este ambiente tem muitos sons interessantes como a passagem de carros e o ruído da abertura da janela do quarto dos meus pais. Tudo isto pode ser ouvido na peça. A linha melódica é derivada de Floating Tones, reforçando a característica de suíte do conjunto de peças em formação.
As duas outras peças da suíte Round Mi continuaram seguindo a nota Mi. Para estas, tentei escrever uma partitura orquestral, já que o sintetizador XP-30 oferecia muit sons orquestras, e também devido às minhas pretensões sinfônicas. Usei o programa de notação musical Finale e escrevi as duas peças inteiramente com ele, antes de gravar o áudio do sintetizador. A inspiração agora veio de Philip Glass, para um movimento lento e outro rápido e climático para encerrar a suíte. O movimento lento foi chamado Procissão. Hoje eu considero o som meio seco, mas foi um bom exercício na época, não só o processo de escrever a peça mas também a gravação e mixagem, tudo feito por mim, no meu quarto. Mas naquele momento eu estava satisfeito com a Procissão, e segui em frente para a peça final.
Novamente usei um velho rascunho, uma peça de Aventura. Eventualmente, a peça pegou emprestado o título da primeira faixa de Aventura: Saindo da Atmosfera. Ela era baseada numa progressão simples, que coincidentemente fazia amplo uso da nota mi. Havia um motivo de 16 notas que se repetia: mi mi mi mi mi mi mi mi fá fá fá fá fá fá ré ré. Improvisando com este motivo, encontrei um acorde interessante, uma inversão de Dó# menor (Mi+Sol#+Dó#). A combinação destes dois elementos formou a base para a peça inteira, uma exploração minimalista de arpejos de Dó# menor e outros acordes ao redor dele. A nota mi pulsa sem descanso durante toda a peça, levando o conceito de "tons ao redor de mi" às últimas consequências. Conforme eu progredia na escrita, ficava animado de ouvir os resultados, mas pensava em como ia fazer para seguir com o plano: gravar tudo aquilo com o sintetizador. Parecia um passo maior que as pernas.
Parte 3: Clouds e as últimas gravações
Nesse meio tempo, eu tive um problema. Eu tinha uma peça interessante, Loopsurf, já em seu lugar como encerramento do álbum. Eu tinha uma suíte sinfônica quase terminada, que seria o início do álbum. No total eram apenas 40 minutos de música e eu não tinha o recheio deste sanduíche. Considerei alguns dos experimentos improvisos mais antigos que tinha gravado. Não eram bons o suficiente, especialmente comparados com o que eu já tinha para o álbum. Tentei gravar algumas coisas novas, rascunhei alguns conceitos novos, mas nada funcionou.
Uma noite, em janeiro de 2002, no meio do trabalho de escrever Saindo da Atmosfera, sentei ao sintetizador para praticar. Selecionei alguns sons, liguei o delay quádruplo para um som clássico de sequencer, liguei o arpejador e comecei a personalizar o som percussivo que o arpejador estava tocando, mudando um dos quatro sons básicos em que se compunha este som percussivo. De repente o som adquiriu uma característica mais interessante e percussiva. Observei o display do sintetizador e vi que tinha selecionado um banjo como um dos quatro sons básicos. Foi uma descoberta feliz. Com este novo som de arpejo personalizado, um som de oboé também modificado e algus sons de fundo suaves, iniciei uma nova composição instantânea. Esta foi tocada com um cuidado especial. Eu queria mantê-la o mais harmônica possível, então sempre que eu tocava os sons de oboé, eu mantinha as melodias dentro dos acordes de fundo, e dentro do arpejo. Eu também queria que a peça tivesse um início, desenvolvimento e fim. Além de tudo eu estava imitando o estilo do Klaus Schulze, só pela diversão. Toquei sem parar por 34 minutos. Quando interrompi a gravação eu já estava impressionado pela música que tinha acabado de tocar. Ouvi muitas vezes, logo depois da gravação e nos dias seguintes. Era isso. Apesar de começar como uma imitação de Klaus Schulze, concluí que a peça tinha a minha personalidade, e que a estrutura dela era suficientemente diferente daquelas normalmente empregadas pelo Schulze. E era também bonita. Ela pedia pra ser publicada. Depois de cuidadosamente tirar 3 minutos dela só para encurtar, reduzindo para exatos 31 minutos, eu chamei esta peça de Clouds, como uma ilustração da som e também uma corruptela de "Klaus", como no jogo de palavras do título de Floating Tones.
Agora eu tinha um álbum quase completo. Ainda tinha que terminar de escrever Saindo da Atmosfera, e tinha uma montanha para escalar: gravar esta peça. A escrita encerrou em março de 2002. Agora eu tinha dezenas de páginas de uma ótima e grandiosa partitura orquestral, e eu tinha que tocar e gravar tudo aquilo. Todos os aspectos foram difíceis pra mim, tocar os amplos arpejos, gravar e mixar. Havia uma ampla variedade de instrumentos: piano, glockenspiel, flauta, piccolo, órgão de igreja, tímpanos, sinos tubulares etc. Todos eles precisavam soar apropriadamente, e a mixagem precisava estar bem balanceada senão este redemoinho de arpejos ia parecer uma bagunça.
Tudo que havia sido feito entre o início de 2000 e meados de 2001 era geralmente rascunhos, peças simples demais, amadoras ou montadas no computador usando amostras sonoras de qualidade baixa. Eu estava aprendendo e experimentando. Agora pela primeira vez eu tinha um álbum de música eletrônica quase completo, que era razoavelmente bom. Dessa vez, eu tinha que publicá-lo.
Parte 4: O contrato
Comecei procurando por um selo dentre aqueles relacionados com a cena local de rock progessivo. Encontrei um que havia lançado alguns álbuns eletrônicos no passado: Som Interior. Claudio Fonzi, o dono do selo, se interessou pela minha história e mandei uma demo: na verdade, o álbum inteiro exceto Saindo da Atmosfera, que estava sendo gravada. Fiquei surpreso pela resposta positiva; é claro que eu acreditava ter um trabalho de qualidade nas mãos, mas uma pessoa experiente dizendo isso era outra coisa.
Eu ainda tinha que finalizar o álbum e o final de suíte. Levei alguns meses pra terminar. No final, apesar de alguns detalhes aqui e ali, pra mim a música soava até melhor que com os arranjos perfeitamente tocados pelo computador. Em julho de 2002, com este finale, o álbum estava pronto.
Assinei um contrato com a Som Interior para 1000 cópias do CD. Achei muito, mas na época nenhuma fábrica fazia menos que isso, o mercado de música digital não existia, e os CD-Rs não eram considerados. Logo antes de mandar o CD-R original para a prensagem, decidi que Loopsurf-Loopsearch não estava boa o suficiente. Passei os dias seguintes gravando várias versões "finais" dela - e vários CD-Rs master diferentes. Então esta peça marcou o início e o final das gravações do meu primeiro álbum. Para o título, tentei muitas possibilidades até que decidi simplesmente abreviar o título da primeira peça. Floating Tones Around Mi assim virou Round Mi, um bom título, já que os rascunhos de Floating Tones foram os primeiros passos do álbum.
Como também sou interessado em artes e designs visuais, criei todos os visuais de capa e encarte. A capa não parece tão especial hoje em dia, e parece melhor impressa que na tela do computador, mas na verdade é uma foto que tirei de uma parte da visão que eu tinha da janela do meu quarto, onde tudo aconteceu. Esta foto foi tratada e se transformou na capa. Todos os outros gráficos coloridos são derivados desta imagem. Para a parte interna do encarte, os gráficos são preto e branco, também inteiramente criados a partir de uma outra foto que mostra eu sentado a uma mesa. A própria foto está incluída na montagem psicodélica.
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Logo depois de declarar a música de Round Mi finalizada, comecei o segundo álbum imediatamente. Em agosto de 2002 gravei um CD-R inteiro com novas peças, no mesmo método de composição instantânea, simplesmente porque nunca tive muito tempo livre para elaborar mais profundamente as músicas. Uma dessas peças novas era muito interessante mas eu não estava muito satisfeito com a sonoridade geral. Gastei literalmente anos tocando praticamente só essa peça, mudando os sons e a mixagem, até que ela se solidificou como uma nova, compacta composição, muito diferente da sua forma original e bem diferente de tudo mais que eu tinha criado até agora... Mas isto já é uma outra história.
- Gustavo Jobim, janeiro/2011
2005: A criação de Tempochuva
Thelmo Cristovam, inventor pernambucano de sons, estava passando uma longa temporada no Rio de Janeiro. Nas vésperas do Natal de 2004 assisti a uma agressiva apresentação de música de feedback dele com o Filipe Giraknob, do Rio, na Plano B, Lapa, Rio de Janeiro.
Após a apresentação, pedi a ajuda deles no meu primeiro show, que aconteceria semanas depois no mesmo lugar. Eles prontamente aceitaram o convite. Minha idéia inicial era que eles fizessem o mesmo som de feedback do outro show. Marcamos uma sessão na minha casa mas em vez das mesas e cabos, vieram Filipe de guitarra, Thelmo de sax e trumpete. E gravamos este improviso apresentado aqui.
Era um dia chuvoso, 24 de janeiro de 2005. O improviso foi liderado pelo Thelmo; como os timbres dos sopros se destacavam, precisavam ser controlados. Consequentemente eu e Filipe também precisamos manter o controle para não desequilibrar o som. O resultado é uma gravação aparentemente calma porém carregada de suspense, como se a qualquer momento fosse explodir.
Durante a gravação, percebemos que o som da chuva estava muito alto. Por um momento paramos de tocar, abri a janela. O microfone captou um pouco da chuva: o som do quarto instrumento, tocado pela Natureza. Foi um momento sublime.
Ficamos de fazer um ensaio antes do show, mas isso acabou não acontecendo. No dia do show, eles vieram, com os mesmos instrumentos daquela primeira sessão. O ensaio que não aconteceu não fez falta: apenas dei as direções básicas e o resultado foi muito melhor do que eu esperava.
- Gustavo Jobim, 06/11/2005 (para a primeira edição de Tempochuva)
2007-2008: A criação de Belles Alliances
Logo depois de terminar meu álbum de estreia Round Mi, em agosto de 2002, gravei algumas peças já com a intenção de fazer um segundo álbum. Mas não consegui finalizar este projeto, então passei os anos seguintes criando e jogando fora diversos conceitos e gravando várias coisas. Enquanto isso, eu queria continuar lançando novas músicas, então veio a trilogia de álbuns experimentais: Sinfonia Nº1, Esboços MarÇianos e A Arte do Tédio. Depois deste último, pela quarta vez sobrou a missão de continuar Round Mi, uma ideia que em 2007 já era velha demais. Tudo que eu tinha naquela época era uma suíte incompleta inspirada pelo pintor surrealista suíço H.R.Giger, que incluía fragmentos datando da época daqueles primeiras gravações pós-Round Mi, mais algumas outras gravações, e anotações num caderno. E eu ainda não sabia o que fazer para transformar estes elementos num álbum completo.
Giger é uma das minhas inspirações principais, dentre muitos pintores e poetas, especialmente aqueles dos movimentos dadaísta e surrealista. Então eu desenvolvi o conceito de um álbum de "pinturas abstratas", mais ou menos nos gênero dark ambient e paisagens sonoras. Este estilo estava de certa forma relacionado com a suíte Giger. Mas em vez de fazer mais um álbum solo experimental, dessa vez decidi tentar algo novo. Era o álbum duplo Pinturas Abstratas - Volume 1: Solo; Volume 2: Colaborações.
Eu já tinha feito alguns trabalhos em colaboração antes, como no álbum Tempochuva, e estava na hora de fazer algo maior. Eu tinha algumas gravações em colaboração que nunca tinham sido devidamente lançadas, e um monte de material solo básico. Estas foram as bases para um novo álbum coletivo. Então a música neste álbum estaria dentro do conceito de "pinturas abstratas", ainda no gênero de eletrônica experimental, e inspirado pela arte surrealista e abstrata, pelo menos da minha parte.
Estou sempre em contato com muitos artistas diferentes mundo afora, especialmente em listas de discussão da internet - particularmente na lista dedicada ao grupo alemão Faust. Eu apresentei a ideia, com o título provisório de Pinturas Abstratas, à lista do Faust e a outros amigos e colegas. Cada artista que quisesse participar criaria comigo uma única peça para o álbum. Os colaboradores estariam livres para fazer o que quiserem, dentro do conceito das Pinturas. O produto final seria lançado de graça na internet.
A resposta foi excelente: 10 colaboradores musicais, incluindo o lendário artista alemão Conrad Schnitzler, que tinha sido uma inspiração por vários anos. Alguns dos colaboradores reuniram suas bandas para o projeto. O material sonoro foi enviado entre os músicos pela internet. Algumas peças foram iniciadas da minha parte: eu selecionava uma gravação solo velha e inédita, ou criava alguma nova, e daí o outro lado fazia o resto do trabalho. Outras faixas foram feitas no sentido oposto. Três peças foram baseadas no mesmo pequeno conjunto de amostras sonoras que eu criei e mandei aos colaboradores. Minha ideia era ver o que artistas diferente fariam com o mesmo material. Realmente, os resultados foram completamente diferentes entre si. Estas são as faixas 1, 9 e 11. As duas peças que já estavam prontas antes do início do projeto, faixas 5 e 10, se encaixaram bem no conceito do álbum e aumentaram o número de colaboradores. A faixa 5, com o artista português Helder Correia, é um módulo construído no computador baseado em amostras sonoras - o método de composição que usei para as primeiras peças experimentais em 2000 - misturadas com sons do sintetizador Roland XP-30. É minha última peça neste formato de módulo. Foi criada em 2004 durante alguns meses e não conseguimos encontrar um título pra ela, deixando ela a Música Sem Nome. A faixa 10 vem da minha primeira sessão com o Leandro Theodorico, em 2005.
Para os gráficos eu chamei o Helder Correia de novo, contei sobre o projeto em que nossa velha peça seria finalmente lançada, e ele fez toda a arte. As fotos de capa e contracapa são de outro colega da lista do Faust, o fotógrafo Ian Land. Juntei tudo isso num encarte digital. O álbum de colaborações se tornou Belles Alliances. O título rouba, sem vergonha, o título do álbum de 1980 do Manuel Göttsching, Belle Alliance, mas a intenção é de homenagear, porque é um bom álbum e Manuel é um dos mestres da música eletrônica. Esse título, no plural, pareceu perfeito para este projeto. O álbum foi lançado em 01/09/2008.
Belles Alliances rapidamente se tornou um álbum conceitual e completo, além das minhas expectativas, mas o desenvolvimento da parte solo do projeto, que manteve o título Pinturas Abstratas, ocorreu lentamente. O álbum solo Pinturas Abstratas nunca foi finalizado nem lançado, e se transformou em outra coisa...
- Gustavo Jobim, janeiro/2011
2009-2010: Um músico aprisionado num emprego: A criação de Trapped in a Day Job
A música desde álbum foi criada usando um pequeno sintetizador de software, o TS-404 v1.05 Beta. Este instrumento cria pequenos loops que podem ser usados em outros arranjos.
Logo depois de começar a mexer com o TS-404, descobri um potencial para peças longas e minimalistas. Os sons retrô que ele produz foram bons para as minhas ideias de criar música inspirada por heróis do início da música eletrônica, principalmente Cluster. Estes sons também me lembravam dos tempos em que eu jogava videogames - trilhas sonoras de videogames foram as primeiras músicas que me chamaram a atenção, ainda na infância, e até hoje eu tenho grande estima por trilhas sonoras de videogames bem feitas. A peça Moebius Tape, inspirada pelo Dieter Moebius, do Cluster, foi a primeira criada para este álbum.
O TS-404 funciona com um conjunto de configurações básicas que você pode mudar para criar um timbre, e 4 sequenciadores em que você escolhe as notas a serem tocadas. Cada sequenciador toca um dos 4 timbres. Estes 4 sequenciadores rodam simultaneamente, possibilitando criar um arranjo inteiro.
Então depois de programar o sintetizador com estes parâmetros, timbres e notas, ao pressionar o botão PLAY, um loop é tocado, e repetido até que o STOP é pressionado. Enquanto o TS-404 está tocando, você pode modificar os timbres e as sequências de notas em tempo real. Em vez de usar o TS-404 para criar loops simples e curtos, eu usei a repetição dos loops como a fundação musical de todas as peças. Conforme eu mudo as sequências de notas em tempo real, as melodias se modificam. E conforme eu mudo os timbres, as formas dos sons mudam.
Assim estas peças foram criadas, usando um PC comum, sempre que eu tinha algum tempo livre no meu trabalho. Hoje em dia eu trabalho em outro lugar.
A maioria destas gravações foi feita ao longo de 1 a 2 semanas entre o final de 2008 e o início de 2009. Nos meses seguintes eu editei algumas músicas, e criei sons adicionais.
Os gráficos para este álbum foram feitos dentro do conceito de "aprisionado" ("trapped"): um labirinto diferente para cada peça; e um arranha-céu monolítico representando a ideia do título. O álbum foi gravado dentro de um prédio semelhante. Ned Netherwood fez a gentileza de resenhar o álbum para seu site (Was Ist Das?); a resenha foi também incluída no encarte.
Em 2009-2010 dividi meu tempo entre estas peças, meu curso de piano e o trabalho de selecionar antigas sobras de estúdio para coletâneas de arquivo. Eventualmente a produção do áudio foi finalizada, e algumas destas peças foram apresentadas na minha página no myspace, mas o álbum por inteiro permaneceu dormente por um longo tempo, até agora.
Em janeiro de 2011, o compacto Cat in the Blender/Arcade Times foi oficialmente lançado como um download grátis. E Trapped in a Day Job foi finalmente lançado em 26 de março.
Os resultados finais são incansáveis peças eletrônicas que se desdobram lentamente, cada uma num estilo diferente. Ouvidos pacientes serão recompensados.
- Gustavo Jobim, março/2011
2003-2011: In Search of Berlin
IN SEARCH OF BERLIN é um retorno à minha primeira influência principal, o estilo conhecido como Escola de Berlim da música eletrônica, ou, no termo em inglês, Berlin School. As principais características deste estilo são músicas longas e instrumentais, com frequência improvisadas; a seção rítmica é formada por repetitivos fraseados produzidos por sequencers, bateria eletrônica e efeitos; há também a adição ocasional de guitarra e percussão acústica. Isso começou em meados da década de 1970, com artistas berlinenses como Tangerine Dream, Klaus Schulze, Ash Ra Tempel e Manuel Göttsching. Eles abriram o caminho para o nascimento de vários gêneros como o trance, ambient, new age, techno e outros. Porém muitos artistas seguiram mais fielmente o estilo criado por estes pioneiros, estabelecendo a própria Berlin School como um outro sub-gênero da música eletrônica, que permanece vivo até hoje.
Nunca abandonei completamente o estilo, apesar dele aparecer mais claramente apenas no meu álbum de estreia, Round Mi (Som Interior, 2003). Deste então, meus álbuns têm mostrado minhas gravações mais experimentais.
IN SEARCH OF BERLIN mostra as obras ligadas mais diretamente ao estilo Berlin School, que foram gravadas entre 2003 e 2009 e até agora permaneciam esquecidas e inéditas. Todas as peças deste álbum foram criadas usando o método de composição instantânea, ou seja, são improvisações tocadas cuidadosamente, de forma que praticamente dispensem qualquer som ou edição extra. Dessa forma, no momento que a gravação é encerrada, a música já está pronta, ou quase pronta. Este método é comum dentro do estilo e é dessa forma que criei quase todas as minhas obras até hoje.
Os instrumentos tocados foram os sintetizadores Roland XP-30 e o MicroKorg. As gravações foram selecionadas, organizadas e intituladas conforme o projeto do álbum. O álbum foi gravado, produzido e masterizado por mim, no meu computador de casa, entre 2009 e 2011. O álbum tem duração total de 78 minutos; destes, 26 faziam parte do mini-álbum Esboços MarÇianos (2006), que foi deletado por ter sido lançado em áudio de baixa qualidade. Estas gravações são reapresentadas aqui em um contexto histórico e musical mais abrangente, e em qualidade de áudio superior. Os 52 minutos restantes são inéditos.
O fotógrafo britânico Ian Land, que participou do álbum colaborativo Belles Alliances (2008), gentilmente cedeu novamente duas fotos para a capa e contra-capa do álbum. A imagem da capa de In Search of Berlin foi escolhida por ele, dentre duas alternativas que eu selecionei de seu vasto arquivo. Eu fiz o design do encarte. O álbum foi lançado em 2011, 29 de outubro - meu 29º aniversário.
IN SEARCH OF BERLIN faz parte de um projeto de resgate de material de arquivo, que está em andamento. Ainda há muitas gravações desde o ano 2000 que permanecem inéditas, mas já foram selecionadas e organizadas. A continuação deste trabalho será lançada em breve.
- Gustavo Jobim, outubro 2011
2012: A criação de Perspectives
Este álbum é um trabalho em colaboração entre Ian Land, fotógrafo inglês residente em Berlim, e eu, um músico do Rio de Janeiro, Brasil. Nós debatemos cada passo e cada aspecto do projeto; este é um álbum de fotos assim como é um álbum de música.
O plano foi o seguinte: o álbum não seria conceitual; cada artista ficaria livre para criar em suas respectivas mídias. Haveriam oito dípticos originais de piano/foto. Quatro destas combinações iniciariam a partir de uma fotografia, que provocaria uma resposta musical; e as outras quatro seriam criadas no sentido oposto. Depois, os dípticos seriam organizados numa ordem específica, na forma de um álbum.
Nós nunca nos encontramos pessoalmente, mas há alguns anos temos sido colegas num grupo (lista) de discussão da Internet dedicado à banda alemã de rock experimental Faust. Muitos membros da lista são também artistas; o grupo é uma comunidade animada, em que uma variedade de tópicos é explorada. A troca criativa entre Ian e eu começou em 2008 quando iniciei o álbum coletivo Belles Alliances, e convidei os colegas da lista do Faust para colaborar. Muitos responderam e participaram do projeto. Quando eu estava procurando por imagens para a capa do álbum, descobri a fotográfia do Ian. Suas imagens tinham climas e atmosferas que eu podia relacionar com minha música. Então pedi a ele para usar duas de suas fotos; ele concordou. Em 2011, para meu álbum solo In Search of Berlin, Ian colaborou novamente, cedendo mais duas imagens de seu arquivo para o encarte desse álbum.
Pouco depois do lançamento de In Search of Berlin, no final de 2011, eu propus um projeto audiovisual completo. Este é o resultado final. O trabalho foi feito durante os primeiros meses de 2012 através de incontáveis emails. O novo álbum eventualmente pegou emprestado o título de uma das peças de piano/foto: PERSPECTIVES.
- Gustavo Jobim, maio/2012
2012: A criação de Nocturnes
Este é o meu quarto álbum de piano solo. Os dois primeiros, Sinfonia No.1 e A Arte do Tédio, eram experimentais, com manipulações eletrônicas de sons de piano de sintetizador. Eles foram seguidos por Perspectives e Nocturnes, ambos criados com um piano digital, que imita um instrumento acústico, sem efeitos eletrônicos. Então eu os considero álbuns "normais" de piano.
Ao final do meu curso de piano, em 2010, eu finalmente adquiri um piano que era bom o suficiente para estudar, um Yamaha Clavinova CLP-330. Apesar de ser um piano digital, meio-termo entre um sintetizador e um piano acústico tradicional, este modelo era o mais próximo de um piano acústico que eu podia comprar.
No início de 2011 meu primeiro filho nasceu e naturalmente passei a ter menos espaço e tempo livre para fazer música com sintetizadores. O novo piano grava em pendrive, o que me permitiu continuar tocando e gravando sem a parafernália de que os sintetizadores requerem.
Além disso, estando longe dos sintetizadores, com seus botões, filtros e outras preocupações relativas a timbre, eu pude focar na performance, estilo, harmonias e melodias. Isto vem me ajudando a desenvolver minha expressividade musical. Então, após algum tempo exeperimentando com o novo instrumento, um ano depois (final de 2011) comecei a gravar; foi assim que surgiu o álbum anterior, Perspectives.
Quando Perspectives foi concebido, como uma colaboração artística, eu planejei segui-lo rapidamente com um projeto solo completo. Entre o final de julho e o início de agosto de 2012, gravei várias sessões para o novo álbum. Estas sessões foram selecionadas e compiladas, com a adição de duas peças das sessões de Perspectives. Assim como no projeto anterior, as performances foram mantidas intactas.
A música foi gravada geralmente à noite, logo depois de todo mundo ter ido dormir. Isto ajudou a trazer para a música uma qualidade calma e evocativa. Ficou fácil pensar num título para o álbum e para as faixas, ainda que eles permaneçam abertos a interpretações assim como a própria música.
Para este projeto eu mesmo criei a capa, desenhando a lápis de pastel a óleo. O álbum foi lançado digitalmente; pela primeira vez eu também imprimi algumas cópias em CDR, cada uma com uma cópia feita a mão da capa original.
- Gustavo Jobim, Agosto/2012
2012: A criação da Sinfonia No.2
Este trabalho vem de um período de intensa experimentação com o microsintetizador analógico monofônico Korg Monotron Delay, que eu adquiri recentemente. O instrumento, que opera a pilha e é mais ou menos do tamanho de uma fita cassette, permite uma grande variedade de realizações eletrônicas. No seu controle minúsculo, comprimem-se várias oitavas. Isto dificulta a criação de melodias, mas mesmo assim, nas minhas experiências, eu pude criar passagens fragilmente melódicas e, graças ao efeito de delay, também harmônicas.
Após diversas gravações experimentais, algumas das quais foram publicadas na Internet, comecei a gravar o novo trabalho no dia do meu 30º aniversário, 29 de outubro de 2012, finalizando no dia 31. A obra foi feita exclusivamente de longas passagens de composição instantânea tocadas apenas com o Monotron Delay, sem edições ou alterações. Trabalho semelhante, explorando o piano de sintetizador, foi publicado em 2005 com o título de Sinfonia No.1. Então esta nova criação foi chamada de Sinfonia No.2.
A nova Sinfonia tem 74 minutos de duração. São três Movimentos com 11 minutos de duração, seguidos de um Interlúdio e dos Movimentos 4 e Finale, com 13 e 18 minutos respectivamente. O Interlúdio é uma exceção à regra, pois é uma passagem de 15 segundos de Monotron processada e esticada através da ferramenta Paul's Extreme Sound Stretch, transformando-se na peça mais curta da obra, com 8 minutos. O movimento Finale foi gravado e filmado simultaneamente. Esta filmagem também foi publicada na Internet.
Toda a produção, gravação, filmagem, edição, e gráficos foram executados por mim. A imagem de capa é um pedaço ampliado de uma foto do próprio instrumento. A Sinfonia No.2 tem a distinção de ser meu primeiro lançamento completamente monofônico.
- Gustavo Jobim, Outubro/2012
2000-2012: Birth
Birth documenta um período importante na minha formação musical, pois mostra as principais gravações de música eletrônica feitas antes do meu álbum de estreia, Round Mi, lançado dez anos atrás. No final do ano 2000, na época do meu aniversário de 18 anos, ganhei meu primeiro sintetizador, o Roland XP-30. Desde o início daquele ano eu estava fazendo curso de teclado e teoria musical, e construindo peças eletroacústicas no computador.
Com o sintetizador, imediatamente comecei a gravar, explorando a criatividade e desenvolvendo a sensibilidade musical através de pesquisas sonoras, improvisações, composições instantâneas e outras formas de expressão. Todas as peças apresentadas aqui foram criadas desta maneira, sem sons adicionais. Tudo que se ouve foi criado e gravado em tempo real.
"Midnight" é a minha primeira obra com o novo instrumento. É uma cuidadosa improvisação de harmonias e melodias com passagens no arpejador. "Evening Falls", "Song of the First Electron" e "Somewhere Between Canopus and Rigel" são do mesmo período. Elas eram parte de "Outubro a Dezembro", uma primeira tentativa de álbum construído na época.
"The Rings of Jupiter" e "Un Autre Poème Électronique" foram gravadas respectivamente antes e depois de Round Mi (2001 e 2003). Elas já mostram uma sonoridade mais introspectiva e abstrata, que viria a ser mais explorada em produções posteriores. A peça de 2003 recebeu este título em 2008, nos 50 anos de "Poème Électronique", uma importante obra na história da música eletrônica, composta por Edgard Varése.
Mojave Night Sky foi gravada entre as sessões finais de Round Mi, em julho de 2002, para ser a minha colaboração em um encontro internacional de fãs do Tangerine Dream, que ocorreu em 2003 no Deserto de Mojave nos Estados Unidos. De acordo com o organizador do evento, Vic Rek, a peça foi tocada como música de fundo enquanto músicos montavam o palco para o concerto que aconteceu durante a convenção. Esta peça é minha primeira tentativa deliberada de fazer música ambient. O resultado final foi interessante, ainda que diferente do pretendido.
Ao longo dos anos, estas gravações foram preservadas intactas e inéditas. Birth é parte de um projeto em andamento de lançamento de material arquivo, que será finalizado em 2013. Estas gravações antigas estão sendo lançadas em sua forma original, sem alterações, a não ser quando estritamente necessário. No caso de Birth, a faixa "Somewhere Between Canopus and Rigel" tem vários momentos de distorção. Esta distorção deve-se à minha inabilidade para gravação daquele tempo. Mesmo hoje, não consegui eliminar esta característica sem que a estrutura da música ficasse comprometida. O defeito é resolvido musicalmente, e assim se torna parte da própria música - o tipo de coisa que acontece quando você compõe instantaneamente.
Quando o projeto de arquivo chegar ao fim, publicarei meu último álbum inédito, Manifesto. Então, com a discografia destes primeiros 13 anos consolidada, poderei trabalhar apenas em novos projetos.
A capa de Birth é uma foto tirada por Aline Sabino, minha esposa, da paisagem vista da janela da nossa sala, num anoitecer de outono. As cores são reais, exceto por um pequeno realce no contraste para a produção da capa. A foto foi tirada em 2011, e imediatamente selecionada para apresentar este álbum.
- Gustavo Jobim, dezembro 2012
2007-2013: Free
Esta sessão de improvisação foi gravada em 28 de outubro de 2007. Cinco anos depois decidimos lançar as gravações. Eu editei a sessão criando três partes diferentes. A arte da capa é inspirada no Tangerine Dream.
- Gustavo Jobim, janeiro 2013
2012-2013: Normal Music
Visszajáró é composto de László Lenkes e Ákos Czini, da Sérvia. Quando publiquei meus primeiros experimentos com o sintetizador analógico Korg Monotron Delay, eles me procuraram com a sugestão de um lançamento conjunto, um "split", com faixas solo de cada um. Eu respondi com uma ideia diferente, uma gravação colaborativa completa. Nós discutimos todos os aspectos do projeto e rapidamente gravamos estas novas peças em novembro-dezembro de 2012. Para mim, Normal Music é uma continuação das ideias que mostrei na Sinfonia No.2 (2012).
- Gustavo Jobim, janeiro 2013
2000-2012: Uma retrospectiva
Retrospect 00/12 é a ponta do iceberg que são meus primeiros treze anos de criações musicais, de 2000 a 2012. Representados aqui estão os muitos e variados aspectos da minha música, num pacote compacto. Todas as peças aqui são instrumentais, com os sons de sequencers, Mellotron, sintetizadores de computador e esculturas sonoras.
Desde 2011, com Trapped in a Day Job, comecei a desvendar muitas gravações inéditas e fora de catálogo. Consegui lançar vários novos álbuns com a distância de poucos meses entre cada um, incluindo material de arquivo e trabalhos contemporâneos. Então Retrospect 00/12 é também uma oportunidade para os ouvintes se atualizarem com essas muitas publicações recentes.
Na verdade, isto aqui é parte de uma revisão discográfica completa. Este processo ainda está em andamento e terminará muito em breve, com o lançamento de Manifesto, o último dos meus álbuns inéditos. Manifesto levou quase 10 anos para ser finalizado e é meu trabalho mais importante até agora.
Este álbum inclui uma faixa inédita, The Disquieting Muses, prelúdio do Manifesto.
O título deste álbum é uma referência a uma de minhas influências, Conrad Schnitzler, pioneiro alemão da música eletrônica. Ele catalogava seus mais de 800 álbuns com uma numeração no padrão 00/### - mas não existe o 00/12.
Retrospect 00/12 foi compilado entre dezembro de 2012 e janeiro de 2013. Ele tem a primeira capa de álbum ilustrada pelo meu filho, Nuno, que tinha menos de 2 anos de idade quando fez a ilustração, sob minha direção. Selecionei as cores, segurei o papel pra ele e depois adicionei alguns dos pontos perto das margens, para finalizar o desenho.
Todos os álbuns passados e futuros mencionados nestas notas e representados nesta coleção estão ou estarão disponíveis como downloads digitais; alguns deles também existem ou existirão em edições físicas preparadas a mão.
- Gustavo Jobim, janeiro 2013
2013: Connection - Tributo a Conrad Schnitzler
Conrad Schnitzler (1937-2011) foi um pioneiro alemão da música eletrônica e experimental. Ele foi membro fundador do Kluster e do Tangerine Dream. Ele cobriu uma ampla gama de estilos musicais através da carreira, às vezes mais melódico e harmônico, outras vezes atonal e abstrato. Ele colaborou comigo no álbum coletivo Belles Alliances (2008), através da internet. Ele propôs que expandíssemos nossa colaboração com um álbum inteiro de piano. Infelizmente ele faleceu antes que eu pudesse terminar o projeto.
CONNECTION é um tributo a este incrível e generoso artista. É um download grátis.
- Gustavo Jobim, Março 2013
2004-2013: Piano Experiments 04/08
O piano é um instrumento clássico, ao qual eu sempre retorno. Tenho álbuns eletrônicos, álbuns de piano solo, mas muitas vezes eu misturo estes dois mundos. PIANO EXPERIMENTS 04/08 é uma mistura especial: traz composições e experimentos feitos exclusivamente com timbres personalizados de piano do meu sintetizador Roland XP-30. Estes sons de piano são tratados com efeitos e filtros, criando diferentes resultados em cada peça. As composições variam entre miniaturas de piano "puro" a vastas paisagens sonoras cheias de ruídos e drones. Estas criações musicais foram todas feitas em tempo real (composições instantâneas).
Piano Experiments 04/08 é um álbum quádruplo que reúne os principais trabalhos de piano de sintetizador que fiz no período 2004-2008:
Os dois primeiros títulos foram lançados originalmente como mp3s de baixa qualidade e haviam sido retirados de circulação; agora, são reintroduzidos com qualidade máxima de áudio, pela primeira vez. O terceiro título é um novo lançamento, é meu 11º álbum.
SINFONIA Nº1 foi meu segundo álbum. Eu sempre usei sons de piano para composições e experimentos musicais. Meu primeiro álbum, Round Mi (2003), tinha alguns sons de piano, mas não as paisagens sonoras mais abstratas que eu vinha tocando. Para meu segundo lançamento, decidi criar um novo trabalho abrangente que incluiria todas as minha técnicas de piano de sintetizador desenvolvidas até aquele ponto. Decidi chamar o trabalho de uma Sinfonia, conforme a concepção de Mahler de que uma sinfonia deve ser como um mundo, abraçando tudo. No lançamento original eu dediquei a Sinfonia ao Mahler e também ao Conrad Schnitzler, pela sua influência como um livre explorador de sons. A Sinfonia é quase toda no tom de Fá menor, um tom em que eu tocava com muita frequência naquela época.
Foi com uma curta performance dos primeiros minutos do Movimento 1 num piano de estudo que eu provei ser um músico suficientemente capaz; assim me tornei membro da Ordem dos Músicos do Brasil, uma instituição federal. Ter esta filiação é um requerimento para músicos tocando em locais do "mainstream", especialmente locais pertencentes ao governo. A carteirinha da Ordem me permitiu tocar no SESC Pompeia, em São Paulo, com o vocalista do Can, Damo Suzuki, na sua histórica primeira performance no Brasil, em 2005.
A principal característica de A ARTE DO TÉDIO é a ironia. O conceito é testar a paciência do ouvinte com música feita para ser especialmente estranha e entediante. A música é às vezes ainda mais experimental que na Sinfonia No.1, mas o álbum é bem mais curto que a Sinfonia. O álbum alterna entre drones, paisagens sonoras abstratas, fraseados aleatórios e bizarros, e interlúdios melódicos. Alguns dos títulos fazem referência a J.S.Bach, Erik Satie e Steve Reich. Os dois últimos são também influência na música. A faixa "Even More Vanguardissima" foi usada alguns anos mais tarde pelo cineasta Christian Caselli como trilha sonora da vinheta-título da Mostra do Filme Livre de 2010.
As peças em NAÏF foram feitas enquanto eu trabalhava em projetos maiores. Algumas faixas, especialmente as mais longas, têm relação com os sons dos dois outro álbuns nesta coleção. As peças mais curtas e recentes (2007, 2008) apontam para o som dos álbuns de piano "puro", feitos com um piano digital em vez do sintetizador usado aqui (Perspectives e Nocturnes, ambos de 2012).
Naïf foi originalmente concebido para ser lançado separadamente. É o último de três compilações de arquivo feitas entre 2009 e 2010; as outras duas compilações se tornaram os álbuns In Search of Berlin (2011) e Birth (2012).
Piano Experiments 04/08 é parte de uma revisão discográfica completa, que começou em 2011 e terminará com o lançamento do álbum Manifesto em 2013.
- Gustavo Jobim, março 2013
2001-2013: O Manifesto
MANIFESTO apresenta minhas obras musicais mais importantes e pessoais. O álbum encerra oficialmente um ciclo e inaugura outro na minha música. Todos os aspectos do meu trabalho mostrados até hoje estão aqui - com talvez algumas surpresas.
MANIFESTO tem o escopo de um álbum duplo, é dividido em duas seções de mesmo tamanho e mesma quantidade de faixas. Cada seção tem suas próprias características, que representei através dos títulos das faixas, fazendo referências a dois de meus artistas preferidos. Na primeira, a principal figura é o H.R.Giger, pintor surrealista suíço; na segunda, a referência é o Augusto dos Anjos, poeta brasileiro único, que morreu cem anos atrás com a idade que tenho hoje, trinta anos.
Oficialmente o 12º álbum solo, o Manifesto foi originalmente concebido para ser o sucessor de Round Mi, meu álbum de estreia. As primeiras gravações foram feitas imediatamente depois do encerramento do primeiro álbum, em julho de 2002. Mas para o segundo trabalho decidi criar uma obra conceitual, que tivesse um pouco das minhas influências mas também suficiente afastamento delas para que mostrasse o máximo da minha própria identidade musical. Esta decisão fez com que o álbum levasse dez anos até atingir a maturidade. A edição final incluiu ainda uma faixa gravada em 2001, ainda antes do primeiro álbum ter começado a ser feito. Portanto as gravações apresentadas aqui foram feitas entre 2001 e 2008.
Ao decidir que já tinha todas as peças para o trabalho, realizei o auto-retrato de capa, ainda em 2008. Em 2009, apresentei uma cópia de demonstração ao maior selo de rock progressivo do mundo, a Musea (França), que aprovou a publicação no subselo Dreaming, de música eletrônica. No entanto, eu teria que arcar com as despesas de prensagem, 800 euros na época, algo até hoje impossível para mim.
Entre 2009 e 2012, aperfeiçoei e dei a forma final ao álbum. Paralelo a isso, fiz uma revisão completa da discografia, já comentada em publicações anteriores, iniciando uma série de lançamentos de arquivo. Em 2011, novas circunstâncias, ideias, ferramentas e colaborações começaram a se entrelaçar com as publicações de arquivo; esta situação deu crescente urgência ao projeto principal. Isto me fez decidir por adiar o que seria o último capítulo da revisão discográfica: o relançamento comemorativo de 10 anos de Round Mi. Ele seria lançado imediatamente antes do Manifesto, mostrando o início e o fim deste ciclo. Mas, como o Round Mi permanece disponível em CD a preço baixo, a reedição digital com faixas bônus ficará para um momento posterior.
O importante é que aqui está meu MANIFESTO: de onde vim, onde estou hoje e para onde estou indo amanhã.
- Gustavo Jobim, abril/2013